
Na próxima terça feira dia 7, sai o novo livro de Miguel Sousa Tavares. Chama-se "No teu deserto", e promete ser um livro muito mais pessoal do que os dois últimos romances do autor.
Depois de ler a entrevista à Visão da semana passada, percebi que se trata de um livro autobiográfico, o que para mim ainda me "aguça" mais o apetite, já que o meu livro favorito, dos que li do MST, é o "Sul".
Este livro é baseado numa viagem de travessia do deserto do Saara, há já alguns anos, onde o autor é acompanhado por uma pessoa que não conhecia, Cláudia, mas que no entanto percorreu esta viagem com ele. Passados 20 anos, ao rever algumas fotos antigas, MST vê uma foto dela, que entretanto morreu, e decidiu escrever esta historia, que começa com uma carta que lhe escreve: "Tu morres e eu escrevo. Ficamos de contas saldadas"
Aqui fica um pequeno excerto:
«Éramos donos do que víamos: até onde o olhar alcançava, era tudo nosso. E tínhamos um deserto inteiro para olhar.»
«Ali estavas tu, então, tão nova que parecias irreal, tão feliz que era quase impossível de imaginar. Ali estavas tu, exactamente como te tinha conhecido. E o que era extraordinário é que, olhando-te, dei-me conta de que não tinhas mudado nada, nestes vinte anos: como nunca mais te vi, ficaste assim para sempre, com aquela idade, com aquela felicidade, suspensa, eterna, desde o instante em que te apontei a minha Nikon e tu ficaste exposta, sem defesa, sem segredos, sem dissimulação alguma.»«Parecia-me que já tínhamos vivido um bocado de vida imenso e tão forte que era só nosso e nós mesmos não falávamos disso, mas sentíamo-lo em silêncio: era como se o segredo que guardávamos fosse a própria partilha dessa sensação. E que qualquer frase, qualquer palavra, se arriscaria a quebrar esse sortilégio.» «Eu sei que ela se lembra, sei que foi feliz então, como eu fui. Mas deve achar que eu me esqueci, que me fechei no meu silêncio, que me zanguei com o seu último desaparecimento, que vivo amuado com ela, desde então. Não é verdade, Cláudia. Vê como eu me lembro, vê se não foram assim, passo por passo, aqueles quatro dias que demorámos até chegar juntos ao deserto.»

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