Acabado de entrar pela porta principal, e depois de ter passado pelo detector de metais e revistado pela policia, começa a subir a escadaria principal, que se divide a meio. Pára, e pensa, pela esquerda ou pela direita?
Será que mais alguém se poderia lembrar de tal coisa? Só na cabeça dele é que uma bifurcação da escadaria da Assembleia da República o levaria a pensar se, seria fiel à sua velha máxima que traduz a ideologia em que acredita, na qual, na dúvida sempre à direita, ou, por outro lado, iria optar pela esquerda.
Vira então à esquerda e continua a subir. Aparece um contínuo que o questiona quanto ao motivo da sua presença naquele sitio. Vim falar com o Sr. deputado, diz ele, ao que o contínuo responde - então acompanhe-me por favor. Percorreram os corredores do poder por alguns minutos, frios,escuros, um pouco sinistros até.
Vai ter de aguardar, o Sr deputado está ocupado mas recebe-o já. Vai ter de aguardar?? Mas eu marquei dia e hora e o Sr deputado está ocupado? pensou ele.
Passados uns minutos lá entrou na sala. O deputado recebe-o de forma descontraída, faz perguntas de circunstância e, claro, fala sobre o tempo, que está de chuva.
Já a começar a ficar meio meio incomodado com a banalidade da conversa dispara a primeira pergunta - Sr. deputado, pode dizer-me o que o levou a aceitar estar nas listas de um partido, e consequentemente, vir para a Assembleia da República assumir o mandato de deputado? Peço-lhe que não me responda com frases estudadas e desculpas de vão de escada como "estou aqui para servir Portugal, ou para servir o Povo, ou porque era o meu dever cívico.
O deputado ficou perplexo! Como? respondeu visivelmente incomodado. Eu respondo como entender, não aceito que condicione as minhas respostas, está a perceber?
Sim sim, então responda por favor.
Bom eu gostaria de começar por dizer que é para mim uma grande honra poder representar o meu povo, o povo que me elegeu, o povo de Freixo de Espada à Cinta, sempre com a consciência de que estou a desenvolver um trabalho de âmbito nacional, seguindo criteriosamente aqueles que são os desígnios da minha consciência cívica e politica, e obedecendo, naturalmente, ao respeito pelo programa do meu partido, que foi aliás sufragado pelos eleitores nacionais. Nesse sentido, tenho desenvolvido aquilo que considero ser um trabalho positivo, na comissão para os assuntos borucráticos e na comissão de desenvolvimento e acompanhamento das questões de âmbito social.
Sr Deputado, em conformidade com aquilo que acabou de dizer gostaria, respeitosamente, de o mandar para o caralho, e passo a explicar: o senhor, assim como 80% dos seus colegas de bancada e de hemiciclo, estão aqui porque se tornaram, faça-se essa justiça, verdadeiros alpinistas partidários. O senhor, e pessoas como o senhor, pegaram nos partidos políticos, que são onde reside a verdadeira essência das democracias, como interluctores dos cidadãos e das suas vontades, e fizeram deles os seus trampolins para um chorrilho de atropelos à causa nobre que deveria ser a politica. Servem-se da causa pública para fazer negócios de carácter duvidoso, para se servirem e não para servir o país. Para alem disso, minaram de tal forma o estado e a administração publica que agora nem sequer conseguem inverter a tendência de abismo que o País tem, e que vai, necessariamente, conduzir essas mesmas pessoas que Vossa Excelência representa, à miséria, precariedade e conflito social.
Um silêncio ensurdecedor encheu por completo aquela sala durante alguns segundos, até que o deputado diz: Epá, tem razão pá! mas olhe, vamos fazer o seguinte, você não diz nada a ninguém e eu contrato-o para meu assessor. Pode ser? Ele esperou, pensou mais alguns segundos e disse: Combinado!! Sr deputado, deixe-me que lhe diga, é uma honra trabalhar para si e poder também dar o meu contributo para poder servir este grande País!
Porreiro pá. Estava mesmo a precisar de um pessoa como você! Frontal, decidida e que não tem medo de chamar os bois pelo nome!