quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

A crise da República

O centenário de 2010 só será útil, se abordar as circunstâncias e causas do definhamento e queda da I República. O ano de 2010 vai ser ocupado de largo a largo pelas comemorações dos cem anos da República. Vamos ler, ver e ouvir a evocação da efeméride de forma constante e reiterada. É bom reavivar a memória colectiva, em geral tão desprezada em Portugal. Mas de preferência essa lembrança deverá ser analítica e projectiva, ajudando a interpretar e iluminar o presente, sem o que se limitará a lampejos académicos sensaborões, e, ao fim e ao cabo, desinteressantes
E o centenário de 2010 só será assim útil, se abordar as circunstâncias e as causas do definhamento e afinal da queda da I República, não se cingindo a proclamações laudatórias de estilo serôdio e provinciano.
Ora por que é que a República de 1910 caiu fragorosamente menos de 16 anos depois de instaurada? Por um conjunto de razões/vícios que podem ser enumerados como segue: deterioração acelerada da força do Estado; esfarelamento e descredibilização das instituições, a começar pela justiça; mediocralização assustadora da qualidade dos agentes políticos, principalmente dos governantes; consequente e progressiva incapacidade dos governantes para resolver e sequer encarar os verdadeiros problemas do país; crise dos partidos, minados pelo clientelismo e pelo caciquismo; instabilidade permanente, ingovernabilidade; galopante buraco das finanças públicas (dizia-se então: iminência da bancarrota), com o aumento descontrolado da dívida externa e a degradação da imagem externa de Portugal nas praças financeiras internacionais; afastamento sistemático da população face ao regime, atitude confirmada na abstenção sempre em alta nos actos eleitorais; corrupção generalizada; baixa do poder de compra dos cidadãos; aumento do fosso entre pobres e ricos, miséria, desemprego.

Esta enumeração soa-vos familiar? Parece-vos que ela encaixa como uma luva em qualquer coisa muito próxima? Sim, é verdade, ela reflecte mimeticamente o que se passa agora entre nós. O país de 1910 e o país de 2009 assemelham-se como duas gotas de água em termos institucionais, políticos e económico-financeiros, se exceptuarmos as inevitáveis características epocais de quase um século de História.


Público – A crise da República, Sebastião Lima Rego

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Sir Bobby Robson

"Remember, we are champions, and champions never lose important games.
I want our president to telephone me after a great victory.
You can do it
You will do it
Todos Lutar
todos confidence
todos cemporcent
Muito courage
Boa sorte todos
Vamos ganhar!!"

Sir Bobby Robson escreveu estas palavras para serem lidas aos jogadores do Porto, quando estava internado num hospital em Inglaterra para ser operado, não podendo por isso sentar-se no banco. Estas foram lidas pelo Presidente Pinto da Costa aos jogadores no balneário, momentos antes da final da Supertaça de 1995, nas Antas contra o Sporting.
Ainda bem que tive o privilegio de ver este grande treinador sentar-se no banco do Porto, durante tanto tempo, mesmo à minha frente.
Tenho pena que hoje, o homem que lá está sentado não tenha esta maneira de ver as coisas...

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Arte e o seu contexto

Aquela poderia ser mais uma manhã como outra qualquer. Eis que o sujeito desce na estação do metro de Washington , vestindo jeans, camisa e boné. Encosta-se próximo à entrada. Tira o violino da caixa e começa a tocar com entusiasmo para a multidão que passa por ali, na hora do rush matinal. Mesmo assim, durante os 45 minutos em que tocou, foi praticamente ignorado por quem passava. Ninguém sabia, mas o músico era Joshua Bell, um dos maiores violinistas do mundo, executando peças musicais consagradas, num instrumento raríssimo, um Stradivarius de 1713, estimado em mais de 3 milhões de dólares. Alguns dias antes, Bell tinha tocado no Symphony Hall de Boston, onde os melhores lugares custaram a bagatela de mil dólares.
A experiência no metro, gravada em vídeo, mostra homens e mulheres de andar ligeiro, copo de café na mão, telemóvel no ouvido, crachá balançando no pescoço, indiferentes ao som do violino. A iniciativa, realizada pelo jornal The Washington Post, era a de lançar um debate sobre valor, contexto e arte. A conclusão é de que estamos acostumados a dar valor às coisas, quando estão num determinado contexto.
Esta historia pode ser lida aqui
Aqui ficam as imagens deste momento improvável.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Historia na palma da mão...

Muito se tem falado, principalmente nos últimos anos, de outros tempos, de outras tradições, de outras governações.
Muita gente diz agora, que no tempo do Estado Novo é que havia sentido de estado e respeito pela "coisa" publica. Não havia liberdade mas havia respeito.
Eu não sei se havia respeito ou não, porque a minha existência é posterior, e, nestas coisas, gosto de fazer o meu próprio julgamento, talvez por isso não teria sido do meu agrado, viver numa sociedade em que o livre arbítrio não faz parte dos direitos fundamentais.
Mas também não é sobre essa questão que me proponho escrever hoje, mas sim fazer o relato de uma experiência pessoal.
Há alguns anos, não muitos, tive a oportunidade de pertencer a um grupo de pessoas, que teve como função dar um parecer sobre a questão do museu do estado novo, em Santa Comba Dão.
Para tal, entre muitas outras coisas, tive de passar alguns dias a conversar com o sobrinho de Oliveira Salazar, em sua casa, e de visitar e analisar o espólio pessoal do antigo Presidente do Conselho, na cave da sua antiga casa.
O espolio é vastíssimo e tem um pouco de tudo. Documentos oficiais, documentos pessoais, todo o tipo de objectos pessoais, uma vasta colecção de moedas, uma outra de selos, cadernos cheios de cartões de visita das mais variadas personalidades nacionais e internacionais.
Dessa experiência de consulta podia contar muitas coisas curiosas que encontrei, como o Orçamento Geral do Estado de 1933, escrito à mão num caderno quadriculado, até mapas de Angola e Moçambique, com anotações do próprio Salazar, cartas da fadista Amália de carácter, digamos, muito pessoal, acabando em cartas do Führer Alemão Adolfo Hitler, etc. A lista é muito longa e absolutamente fascinante.
Mas houve duas coisas que verdadeiramente me deixaram estupefacto, uma carta escrita e assinada por ele, e outra, um objecto histórico de valor incalculável, que tive oportunidade de ter na minha mão.
A primeira trata-se de uma carta escrita à mão, numa caligrafia muito bem desenhada e bastante perceptível, datada e assinada. Não sei reproduzir "Ipsis verbis" o que la estava escrito, mas era qualquer coisa deste género: no dia X do mês Y, desloquei-me, em viagem privada, a Santa Comba Dão. Para tal, utilizei o carro do estado, e requisitei o motorista Z para me conduzir ate lá. À Saída o carro tinha X km e quando cheguei tinha Y. A gasolina que meti foi do valor Z, que deve ser descontado ao meu ordenado no final do mês, assim como o valor X que calculo corresponder ao desgaste do carro por ter feito a viagem. O salário do motorista correspondente a um dia de trabalho, deve também ser descontado ao meu salário no final do mês.
Fiquei estarrecido. Mas que raio de contraste é este, tão absolutamente recto na análise do Estado e das suas despesas, e, depois, tão pouco tolerante e mesmo castrador das liberdades individuais dos seus cidadãos?
A segunda historia, também aconteceu nessa semana, passada na casa do ex-ditador. A certa altura, o sobrinho, no meio de uma parafernália das mais altas condecorações de vários países, espalhadas em cima de uma mesa, mostra-me um pin, muito pequeno, que percebi logo ser em ouro maciço. E este? o que acha deste pin? perguntou ele naquele ar muito próprio e até meio sinistro. Pus o pin na palma da minha mão e reparei imediatamente que tinha o símbolo da casa real portuguesa. "Este era o pin que o Rei D. Carlos usava na lapela da casaca, no dia em que foi assassinado no Terreiro do Paço em 1908." Fiquei igualmente estarrecido! "Quem o ofereceu ao meu tio foi a Rainha D. Amélia, num encontro privado que teve com ele"
Não queria acreditar!! O Pin que o Rei D. Carlos usava no dia em que foi assassinado estava na minha mão! A isto se chama ter a historia na palma da mão...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Carta de Francisco Louçã ao Pai Natal

Isto não é uma carta!
É um manifesto. Um protesto. Uma petição
Assinada por dezenas de intelectuais
E outras pessoas que jamais
Se reviram numa festa
Bacanal
Orgia de oferendas
Dadas sem qualquer critério
E que perpetuam uma tradição
Caduca. Reaccionária. Clerical.
Que tu representas oh pai do natal.
Com esta petição pretendemos
Que a data seja referendada
Não imposta, decretada
Por um estado economicista e liberal
E que seja celebrada quando um homem quiser
Não à roda da mesa. Consoada.
Mas num portuguesíssimo arraial.

Recebido por mail.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

D. Manuel Clemente


O vencedor deste ano do Prémio Pessoa foi atribuído a D. Manuel Clemente, Bispo do Porto, que se torna no primeiro membro da Igreja a ser distinguido nos 23 anos do galardão.
Manuel José Macário do Nascimento Clemente, 61 anos, bispo do Porto desde 2007, é licenciado em História, pela Faculdade de Letras de Lisboa e em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa. Foi ainda coordenador do Conselho Presbiteral do Patriarcado desde 1996, director do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa e coordenador da Comissão Preparatória da Assembleia Jubilar do Presbitério para o Ano 2000. D. Manuel Clemente é conhecido pelo seu espírito comunicativo e interveniente. Em 2008, foi o primeiro bispo português a usar o YouTube para transmitir a mensagem de Natal. (Jornal i)

D. Manuel Clemente é o autor de uma vasta obra historiográfica, com destaque para títulos como: “Portugal e os Portugueses” e “Um só propósito” publicados em 2009, “Igreja e Sociedade Portuguesa, do Liberalismo à República” e “Nas Origens do Apostolado Contemporâneo em Portugal- A Sociedade Católica (1843-1853)”.

Considerado por muitos, como uma das pessoas mais influentes da Igreja Católica Portuguesa, o Bispo do Porto, é também uma reconhecida figura do meio intelectual português.
Este prémio, bem como a conduta de D. Manuel Clemente, mostra bem o papel que a Igreja pode ter numa sociedade que se debate com problemas sérios ao nível dos valores morais e cívicos.
Consegue fugir ao chavão clássico de membro do Clero, distante das pessoas e ultrapassado na sua concepção da sociedade, e mostra uma faceta de modernidade e sobriedade, muitas vezes tão difícil de conseguir por parte da Igreja.
A Igreja Católica, não nos esqueçamos, tem tido um papel fundamental na actual situação económico-social do país. Tem feito um trabalho notável a nível social, de ajuda e, muitas vezes, tábua de salvação para muitas famílias, especialmente nas pequenas paroquias do país.
O problema é que, frequentemente, é dado mais eco na comunicação social a questões que sejam susceptíveis de causar polémica por parte da igreja, do que ao trabalho, reconheça-se, meritório de ajuda e solidariedade social.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O circo de que eu falava!

Capítulo II, Artigo 10.º do Estatuto dos Deputados,

"Os Deputados não respondem civil, criminal ou disciplinarmente pelos votos e opiniões que emitirem no exercício das suas funções e por causa delas."

Ora ainda bem, porque com esta disenteria verbal, ia ser bonito...



PS: Reparem que, no final, o Deputado João Semedo se insurge, em defesa dos palhaços e esquizofrenicos. A cereja no topo do bolo!!!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O país do Serafim Saudade

Há uma altura em que devemos dizer basta!
Já chega de vigarice e compadrio. Já chega de ser um país abaixo do razoável, já chega de ser um país movido pela inveja alheia e pelas cunhas.
Já chega de sermos um país de "eu conheço um gajo que é amigo do zé Joaquim, que é primo do vice-presidente da jota, que por sua vez conhece o Sousa, assessor do adjunto do secretário de estado adjunto de qualquer coisa"
A falta de meritocracia é tão fatal como o destino, e se continuarmos a caminhar neste sentido, não há solução possível.
Mas o povo verdadeiramente não sabe, nem quer saber... O povo, está visto, quer pão e circo.
Circo já tem, basta ver os telejornais, o problema vai ser quando acabar o pão...

E então se assim é, vamos lá:
Serafim, Serafim...



PS: Palavras escritas no dia em que o Sousa, esse mesmo (assessor do adjunto do secretário de estado adjunto de qualquer coisa), me nomeou para chefiar um serviço público do qual não faço a ponta de um corno de ideia de como funciona, nem para que serve!
Viva Portugal!!!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Mário Soares

Interessante, esta entrevista de Mário Soares ao Jornal i, no dia em que faz 85 anos.
Fala de Norton de Matos, Salazar, Humberto Delgado, Álvaro Cunhal, o regime, o escândalo ballet rose, a actualidade política nacional, José Sócrates e Manuel Alegre. Retrato do país que fomos e que somos.

Achei particularmente importante a resposta sobre Manuel Alegre, que faz manchete à entrevista. Nesta altura do campeonato não há declarações destas sem um objectivo político...

"E como é que se sente hoje perante Manuel Alegre?

Fui durante muitos anos amigo dele, tínhamos um contacto quase diário. Eu gosto dele, dou-me bem com o temperamento dele... Mas não aprecio a maneira como se tem comportado como militante do PS. Com um pé dentro e outro fora..."

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Amaro da Costa


Faz hoje 29 anos que morreu Adelino Amaro da Costa.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009