Muito se tem falado, principalmente nos últimos anos, de outros tempos, de outras tradições, de outras governações.
Muita gente diz agora, que no tempo do Estado Novo é que havia sentido de estado e respeito pela "coisa" publica. Não havia liberdade mas havia respeito.
Eu não sei se havia respeito ou não, porque a minha existência é posterior, e, nestas coisas, gosto de fazer o meu próprio julgamento, talvez por isso não teria sido do meu agrado, viver numa sociedade em que o livre arbítrio não faz parte dos direitos fundamentais.
Mas também não é sobre essa questão que me proponho escrever hoje, mas sim fazer o relato de uma experiência pessoal.
Há alguns anos, não muitos, tive a oportunidade de pertencer a um grupo de pessoas, que teve como função dar um parecer sobre a questão do museu do estado novo, em Santa Comba Dão.
Para tal, entre muitas outras coisas, tive de passar alguns dias a conversar com o sobrinho de Oliveira Salazar, em sua casa, e de visitar e analisar o espólio pessoal do antigo Presidente do Conselho, na cave da sua antiga casa.
O espolio é vastíssimo e tem um pouco de tudo. Documentos oficiais, documentos pessoais, todo o tipo de objectos pessoais, uma vasta colecção de moedas, uma outra de selos, cadernos cheios de cartões de visita das mais variadas personalidades nacionais e internacionais.
Dessa experiência de consulta podia contar muitas coisas curiosas que encontrei, como o Orçamento Geral do Estado de 1933, escrito à mão num caderno quadriculado, até mapas de Angola e Moçambique, com anotações do próprio Salazar, cartas da fadista Amália de carácter, digamos, muito pessoal, acabando em cartas do Führer Alemão Adolfo Hitler, etc. A lista é muito longa e absolutamente fascinante.
Mas houve duas coisas que verdadeiramente me deixaram estupefacto, uma carta escrita e assinada por ele, e outra, um objecto histórico de valor incalculável, que tive oportunidade de ter na minha mão.
A primeira trata-se de uma carta escrita à mão, numa caligrafia muito bem desenhada e bastante perceptível, datada e assinada. Não sei reproduzir "Ipsis verbis" o que la estava escrito, mas era qualquer coisa deste género: no dia X do mês Y, desloquei-me, em viagem privada, a Santa Comba Dão. Para tal, utilizei o carro do estado, e requisitei o motorista Z para me conduzir ate lá. À Saída o carro tinha X km e quando cheguei tinha Y. A gasolina que meti foi do valor Z, que deve ser descontado ao meu ordenado no final do mês, assim como o valor X que calculo corresponder ao desgaste do carro por ter feito a viagem. O salário do motorista correspondente a um dia de trabalho, deve também ser descontado ao meu salário no final do mês.
Fiquei estarrecido. Mas que raio de contraste é este, tão absolutamente recto na análise do Estado e das suas despesas, e, depois, tão pouco tolerante e mesmo castrador das liberdades individuais dos seus cidadãos?
A segunda historia, também aconteceu nessa semana, passada na casa do ex-ditador. A certa altura, o sobrinho, no meio de uma parafernália das mais altas condecorações de vários países, espalhadas em cima de uma mesa, mostra-me um pin, muito pequeno, que percebi logo ser em ouro maciço. E este? o que acha deste pin? perguntou ele naquele ar muito próprio e até meio sinistro. Pus o pin na palma da minha mão e reparei imediatamente que tinha o símbolo da casa real portuguesa. "Este era o pin que o Rei D. Carlos usava na lapela da casaca, no dia em que foi assassinado no Terreiro do Paço em 1908." Fiquei igualmente estarrecido! "Quem o ofereceu ao meu tio foi a Rainha D. Amélia, num encontro privado que teve com ele"
Não queria acreditar!! O Pin que o Rei D. Carlos usava no dia em que foi assassinado estava na minha mão! A isto se chama ter a historia na palma da mão...

Boa história pessoal e muito bem escrita.
ResponderEliminarAbraço
Mto obrigado Dr. Castela!
ResponderEliminarUm abraço