quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Historia na palma da mão...

Muito se tem falado, principalmente nos últimos anos, de outros tempos, de outras tradições, de outras governações.
Muita gente diz agora, que no tempo do Estado Novo é que havia sentido de estado e respeito pela "coisa" publica. Não havia liberdade mas havia respeito.
Eu não sei se havia respeito ou não, porque a minha existência é posterior, e, nestas coisas, gosto de fazer o meu próprio julgamento, talvez por isso não teria sido do meu agrado, viver numa sociedade em que o livre arbítrio não faz parte dos direitos fundamentais.
Mas também não é sobre essa questão que me proponho escrever hoje, mas sim fazer o relato de uma experiência pessoal.
Há alguns anos, não muitos, tive a oportunidade de pertencer a um grupo de pessoas, que teve como função dar um parecer sobre a questão do museu do estado novo, em Santa Comba Dão.
Para tal, entre muitas outras coisas, tive de passar alguns dias a conversar com o sobrinho de Oliveira Salazar, em sua casa, e de visitar e analisar o espólio pessoal do antigo Presidente do Conselho, na cave da sua antiga casa.
O espolio é vastíssimo e tem um pouco de tudo. Documentos oficiais, documentos pessoais, todo o tipo de objectos pessoais, uma vasta colecção de moedas, uma outra de selos, cadernos cheios de cartões de visita das mais variadas personalidades nacionais e internacionais.
Dessa experiência de consulta podia contar muitas coisas curiosas que encontrei, como o Orçamento Geral do Estado de 1933, escrito à mão num caderno quadriculado, até mapas de Angola e Moçambique, com anotações do próprio Salazar, cartas da fadista Amália de carácter, digamos, muito pessoal, acabando em cartas do Führer Alemão Adolfo Hitler, etc. A lista é muito longa e absolutamente fascinante.
Mas houve duas coisas que verdadeiramente me deixaram estupefacto, uma carta escrita e assinada por ele, e outra, um objecto histórico de valor incalculável, que tive oportunidade de ter na minha mão.
A primeira trata-se de uma carta escrita à mão, numa caligrafia muito bem desenhada e bastante perceptível, datada e assinada. Não sei reproduzir "Ipsis verbis" o que la estava escrito, mas era qualquer coisa deste género: no dia X do mês Y, desloquei-me, em viagem privada, a Santa Comba Dão. Para tal, utilizei o carro do estado, e requisitei o motorista Z para me conduzir ate lá. À Saída o carro tinha X km e quando cheguei tinha Y. A gasolina que meti foi do valor Z, que deve ser descontado ao meu ordenado no final do mês, assim como o valor X que calculo corresponder ao desgaste do carro por ter feito a viagem. O salário do motorista correspondente a um dia de trabalho, deve também ser descontado ao meu salário no final do mês.
Fiquei estarrecido. Mas que raio de contraste é este, tão absolutamente recto na análise do Estado e das suas despesas, e, depois, tão pouco tolerante e mesmo castrador das liberdades individuais dos seus cidadãos?
A segunda historia, também aconteceu nessa semana, passada na casa do ex-ditador. A certa altura, o sobrinho, no meio de uma parafernália das mais altas condecorações de vários países, espalhadas em cima de uma mesa, mostra-me um pin, muito pequeno, que percebi logo ser em ouro maciço. E este? o que acha deste pin? perguntou ele naquele ar muito próprio e até meio sinistro. Pus o pin na palma da minha mão e reparei imediatamente que tinha o símbolo da casa real portuguesa. "Este era o pin que o Rei D. Carlos usava na lapela da casaca, no dia em que foi assassinado no Terreiro do Paço em 1908." Fiquei igualmente estarrecido! "Quem o ofereceu ao meu tio foi a Rainha D. Amélia, num encontro privado que teve com ele"
Não queria acreditar!! O Pin que o Rei D. Carlos usava no dia em que foi assassinado estava na minha mão! A isto se chama ter a historia na palma da mão...

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