Tenho sido um espectador atento da pré-campanha para as eleições europeias. Por isso, parece-me importante, mais do que fazer uma análise candidato a candidato, salientar algumas questões.
Em primeiro lugar, e porque é uma questão incontornável, a escolha de Vital Moreira para cabeça de lista do PS. Anunciado com grande pompa no congresso de Espinho, logo ali, após o primeiro discurso, se percebeu que a capacidade de comunicação do professor de direito estava muito aquém daquilo que é esperado para a primeira figura de uma lista eleitoral. Quer se queira quer não, é absolutamente “vital” que mesmo na época da política espectáculo, um candidato seja detentor de uma boa capacidade de oratória, tradição aliás, que vem desde os tempos de Sócrates (o filósofo).
No entanto, fazendo uma análise objectiva a esta escolha, e tendo em conta que o primeiro-ministro não costuma dar ponto sem nó (já provou que tem faro politico), eu acho que ela foi pensada e bem pensada.
A questão, na minha opinião, prende-se com o facto de este ser um acto eleitoral que vai ter fraca participação, o que aliás já é uma tradição das eleições europeias, não só em Portugal como no resto da Europa, por razões que são conhecidas, e que se prendem com a profunda falta de conhecimento por parte dos eleitores relativamente à organização e funcionamento das instituições europeias. Para além da fraca participação, este é um ano atípico em termos de calendário eleitoral, uma vez que se assiste a três actos eleitorais, sendo um deles as eleições legislativas. A leitura que José Sócrates e o PS fizeram, foi na minha opinião, a de que estas eleições deveriam ser entendidas como uma eleição de protesto por parte dos eleitores relativamente a uma conjuntura nacional de grave crise. Portanto, a melhor maneira de suavizar um eventual desaire eleitoral seria a de escolher um candidato que reunisse duas condições essenciais: a primeira que não estivesse ligado directamente e como figura de primeira linha ao PS, e que portanto, em caso de má prestação não “chamuscasse” o partido; e a segunda que fosse um candidato que mostrasse ao país um partido de esquerda, ou melhor, o grande partido da esquerda democrática, em contraponto ao BE.
Neste sentido, Vital Moreira, assumia-se como um bom candidato, porque para além de reunir estes dois factores, granjeava também de algum prestígio como professor de direito e como constitucionalista.
No entanto, a pré-campanha não correu bem para o candidato e para o PS, com debates desastrosos na televisão, peripécias de agressões, e com más interpretações.
Eu penso que o PS e José Sócrates não contavam com este tipo de desempenho, e não sei se este resultado, aliado a, reconheça-se, uma boa campanha por parte de Paulo Rangel, não poderá começar a inverter a tendência de voto para as eleições de Outubro. Dificilmente o Partido Socialista perderá essas eleições, mas também o objectivo não é apenas o de as ganhar, mas sim o de ter maioria absoluta.

Parabéns, análise política incisiva.
ResponderEliminarAcho como tu que o "Vital" pode ser um tiro no pé do PS. Tenho acompanhado pouco a pré-campanha, mas já percebi que é já para as Legislativas e nada tem a ver com as Europeias.
Basta ver as "caravanas" em desfile pelas ruas das principais cidades do país, sem qualquer mensagem que não seja o beijinho, o abracinho, o sorrisinho amarelo e o inevitável panfletinho. Nisso, democracia em pleno, todos iguais...
Seja o Vital, o Rangel ou o Portas, quem é que vai andar pelas feiras a explicar o que é o PE, e as suas prerrogativas enquanto único orgão comunitário eleito por sufrágio universal directo? ou os efeitos efectivos da sua actividade sobre as nossas vidas diárias?
Bandeirinhas na rua, panfletos aos milhares, figuras públicas atreladas... Serão mais umas eleições europeias sobre umas "coisas" lá por Bruxelas, ou Estrasburgo, "aqueles gaijos que arruinaram as nossas pescas, a nossa ingricultura", com abstenção em alta e focos virados às Legislativas, porque o país continua pequenino pequenino, a olhar para o umbigo.
A falta de conhecimento mínimo de um povo integrado há vinte e três anos no espaço comunitário europeu sobre esse mesmo espaço, as suas mais-valias e as suas imposições também, não envergonha tanto o povinho como sobretudo a politicagem, de todos os quadrantes, que nunca encontrou real interesse em formar, e informar, a massa votante. Pão e vinho, meu amigo.
Só Fátima e Benfica é que têm descido na bolsa de valores pátrios. Mas ouvi dizer que o Quique está a preparar uma romaria a Fátima tendo em vista o campeonato do ano que vem. 2 em 1, preparem-se pelos nuortes...